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Prótese de Joelho

Fisioterapia após prótese de joelho: as primeiras 6 semanas decidem o resultado

Fisioterapia após prótese de joelho, por um cirurgião para fisioterapeutas: o que fazer nas primeiras 6 semanas, quadríceps, flexão, marcha e critérios.

Ortopedista de Joelho em Goiânia - Dr. Ulbiramar CorreiaDr. Ulbiramar Correia8 min de leitura
Fisioterapeuta acompanhando idosa com andador e curativo no joelho operado, no treino de marcha da fisioterapia após prótese de joelho

A prótese total de joelho é, de todas as cirurgias que faço, a que mais engana. O implante entra em uma hora e meia, a radiografia do dia seguinte fica bonita, e o paciente sai do hospital andando. Parece pronto. Não está. O que define se aquela prótese vai ser um joelho que sobe escada sem pensar ou um joelho rígido e fraco é a fisioterapia após prótese de joelho, e a maior parte dessa história se escreve nas primeiras seis semanas.

Este é o terceiro texto da série para fisioterapeutas, depois de LCA por critérios e menisco. Aqui o público é outro: o paciente típico tem mais de 60 anos, anos de artrose, quadríceps atrofiado antes mesmo da cirurgia e, muitas vezes, medo. O trabalho do fisioterapeuta é técnico e é humano, nas mesmas proporções.

O que a prótese não resolve, e a fisioterapia após prótese de joelho precisa resolver

A cirurgia troca a superfície articular. Ela não devolve força, não ensina a andar sem o padrão protetor de anos e não impede a rigidez. Três números explicam o tamanho do problema:

  • A força do quadríceps cai cerca de 60% no primeiro mês depois da artroplastia, e essa perda, mais que a dor ou a amplitude, é o que melhor explica a função no início da recuperação (Mizner et al., 2005).
  • Seis meses depois, pacientes operados ainda apresentam força e desempenho funcional abaixo de adultos saudáveis da mesma idade (Bade et al., 2010).
  • Cerca de um em cada cinco pacientes não fica satisfeito com a prótese, e a expectativa não atendida em função é um dos principais motivos (Bourne et al., 2010).

O implante é o mesmo nos satisfeitos e nos insatisfeitos. O que muda, na maior parte das vezes, é a reabilitação.

O que a evidência diz sobre intensidade e início precoce

Por muito tempo a fisioterapia após prótese de joelho foi conduzida com cautela excessiva: exercícios leves, progressão lenta, medo de "mexer demais" no implante. A evidência foi na direção contrária. Um ensaio clínico comparou reabilitação de alta intensidade iniciada precocemente com o protocolo convencional e encontrou melhor força, melhor função e melhor desempenho em testes de marcha e escada (Bade e Stevens-Lapsley, 2011). A eletroestimulação neuromuscular do quadríceps, iniciada nos primeiros dias, também melhorou força e função em outro ensaio do mesmo grupo (Stevens-Lapsley et al., 2012). E a mobilização precoce, ainda no hospital, reduz o tempo de internação (Guerra et al., 2015).

A prótese moderna tolera carga total desde o primeiro dia. Quem precisa de tempo é o músculo, e músculo se recupera com estímulo, não com repouso.

As primeiras 6 semanas, fase a fase

Dias 0 a 3: no hospital

O fisioterapeuta do hospital é o primeiro contato do paciente com a reabilitação, e ele faz mais do que parece: levanta o paciente no mesmo dia ou no seguinte, ensina a transferência da cama, inicia a marcha com andador, garante a extensão completa em repouso e começa a ativação do quadríceps. Nessa fase, o "quero ir para casa" do paciente depende de conseguir andar 30 metros com segurança e subir alguns degraus; quem viabiliza isso é o fisioterapeuta.

Semanas 1 e 2: extensão, quadríceps e marcha

As metas são três, e nessa ordem: extensão completa, contração do quadríceps sem lag e marcha com andador ou muletas com apoio total.

A extensão é o ponto que mais insisto. Um joelho que fica em flexão nas primeiras semanas desenvolve contratura, e a contratura em flexão numa prótese é difícil de reverter depois. Peço ao fisioterapeuta que não deixe travesseiro embaixo do joelho, que trabalhe extensão passiva com o calcanhar apoiado e que me avise se, na segunda semana, faltarem mais de 5 graus para a extensão completa.

Fisioterapeuta mobilizando a flexão do joelho de um paciente idoso deitado na maca, com cicatriz vertical sobre a patela após prótese total de joelho
Ganho de flexão nas primeiras semanas após a prótese: trabalho diário, progressivo e, quase sempre, desconfortável. É o fisioterapeuta que mantém o paciente firme nessa fase.

A flexão avança em paralelo, com meta de 90 graus ao fim da segunda semana. Não é meta arbitrária: 90 graus é o mínimo para sentar e levantar de uma cadeira e para subir escada com alternância. As atividades do dia a dia exigem entre 90 e 120 graus de flexão (Rowe et al., 2000), e é para isso que estamos trabalhando. O paciente costuma perguntar quanto tempo demora para dobrar o joelho depois da prótese; a resposta técnica é que a maior parte do ganho acontece nas primeiras seis semanas, e o que não vier nesse período vem com muito mais esforço depois.

Semanas 3 e 4: força e retirada progressiva do apoio

Com extensão completa e flexão em torno de 100 graus, o foco muda para força: quadríceps, glúteos, isquiotibiais e panturrilha, com progressão de carga real, não só exercícios de tornozelo e isometria. A retirada do andador ou das muletas é por critério, não por data: marcha sem claudicação, sem sensação de falseio e sem aumento de derrame depois de caminhar.

É a fase em que a alta intensidade do estudo de Bade entra: sentar e levantar com carga progressiva, step, leg press em arco confortável, bicicleta assim que a flexão permitir a pedalada completa. O fisioterapeuta que "poupa" o paciente aqui está, na verdade, atrasando o resultado.

Semanas 5 e 6: função e independência

Meta de flexão acima de 110 graus, marcha sem apoio na maior parte dos ambientes, escada com alternância, equilíbrio unipodal. É o momento em que o paciente para de se sentir operado e passa a se sentir em treino. Muitos querem parar a fisioterapia aqui, porque "já estão bem". Peço ao fisioterapeuta que segure o paciente por mais algumas semanas: a força do quadríceps ainda está muito abaixo do normal, e é ela que vai definir se a prótese dura bem e se o outro joelho não vai pagar a conta.

Dois apoios práticos dessa fase estão detalhados à parte: como usar muletas depois da cirurgia e gelo e crioterapia no pós-operatório do joelho.

Os critérios que peço

Marco Critério Quem mede
Alta hospitalar Marcha de 30 metros com andador, transferências seguras, extensão completa em repouso Fisioterapeuta do hospital
Fim da semana 2 Extensão completa (déficit menor que 5 graus), flexão de 90 graus, elevação da perna reta sem lag Fisioterapeuta
Retirar andador ou muletas Marcha sem claudicação e sem falseio, derrame estável após caminhar Fisioterapeuta
Fim da semana 6 Flexão acima de 110 graus, escada com alternância, sentar e levantar sem uso das mãos Fisioterapeuta
Alta da fisioterapia Força de quadríceps próxima do lado contralateral (ou do esperado para a idade), caminhada de 6 minutos compatível com a rotina, independência nas atividades Fisioterapeuta e cirurgião

Sinais que peço para vigiar

Quatro situações em que quero saber na hora, e é o fisioterapeuta que vai perceber primeiro: extensão que não chega na segunda semana; flexão que estaciona abaixo de 90 graus na terceira; ferida com secreção, calor ou vermelhidão que aumenta; e dor na panturrilha com edema, que pode ser trombose. Nos dois primeiros casos, ainda tenho janela para intervir, inclusive com manipulação sob anestesia se necessário, e a janela fecha rápido.

Além disso, o sono. Dor noturna e dificuldade para achar posição são queixas quase universais nas primeiras semanas, atrapalham a adesão à fisioterapia e raramente entram no plano. Vale orientar o paciente sobre como dormir depois da cirurgia no joelho; um paciente que dormiu chega à sessão em condições de trabalhar.

Os sinais de trombose depois da cirurgia de joelho e a curva esperada da dor depois da cirurgia de joelho estão descritos em artigos próprios.

O que devo ao fisioterapeuta nessa cirurgia

Na prótese, mais que em qualquer outra cirurgia que faço, o fisioterapeuta lida com o que eu não vejo: o medo de carregar, a desistência na terceira semana, a família que superprotege, o paciente que esconde a dor para não decepcionar. Ele é ao mesmo tempo técnico, treinador e, muitas vezes, a única pessoa que diz ao paciente que o desconforto do ganho de flexão é esperado e vai passar.

O que devo a ele: relatório com o tipo de implante, se houve liberação de partes moles ou alguma restrição específica, e a extensão e flexão que obtive na mesa cirúrgica, porque essa é a amplitude que o joelho pode alcançar, e o fisioterapeuta precisa saber qual é o alvo. E devo, sobretudo, dizer ao paciente que o resultado foi trabalho de quem o reabilitou. A prótese total de joelho feita em Goiânia por mim tem o meu nome na cirurgia, mas o joelho que funciona tem o nome de quem passou seis semanas ao lado dele.

Para o paciente que chegou até aqui

Se você vai colocar uma prótese ou acabou de colocar, a mensagem é simples: as primeiras seis semanas de fisioterapia não são opcionais nem negociáveis, e a intensidade faz parte do tratamento. Escolha um fisioterapeuta que trabalhe com metas e que não tenha medo de exigir. Sobre o tempo total de recuperação da prótese de joelho, a resposta é a mesma que dei para as outras cirurgias: depende menos do calendário e mais de quem conduz a reabilitação.

Para saber o que fica liberado e o que não, leia o que não pode fazer depois da prótese de joelho.

Perguntas frequentes

Quando começa a fisioterapia após a prótese de joelho?

No mesmo dia ou no dia seguinte à cirurgia, ainda no hospital. O fisioterapeuta levanta o paciente, ensina as transferências, inicia a marcha com andador, garante a extensão em repouso e começa a ativação do quadríceps. A mobilização precoce reduz o tempo de internação e a prótese moderna tolera carga total desde o primeiro dia.

Quantas semanas de fisioterapia são necessárias após a prótese de joelho?

As primeiras 6 semanas são decisivas e não negociáveis: nelas se conquistam a extensão completa, a flexão acima de 110 graus e a marcha sem apoio. Depois disso, a maioria dos pacientes ainda precisa de várias semanas de fortalecimento, porque a força do quadríceps segue muito abaixo do normal e é ela que garante a função a longo prazo.

Quantos graus de flexão o joelho precisa ter depois da prótese?

A meta é 90 graus ao fim da segunda semana e acima de 110 graus ao fim da sexta. As atividades do dia a dia exigem entre 90 e 120 graus: sentar e levantar, subir escada com alternância, entrar no carro. A maior parte do ganho acontece nas primeiras seis semanas, e o que não vem nesse período exige muito mais esforço depois.

A fisioterapia após a prótese de joelho deve ser intensa?

Sim. Ensaio clínico comparou reabilitação de alta intensidade iniciada precocemente com o protocolo convencional e encontrou melhor força, função e desempenho em marcha e escada. A cautela excessiva atrasa o resultado. Desconforto durante o ganho de flexão e o fortalecimento é esperado; dor forte, calor e derrame crescente pedem ajuste.

Quais sinais de alerta o fisioterapeuta deve comunicar ao cirurgião após a prótese?

Extensão que não chega na segunda semana, flexão que estaciona abaixo de 90 graus na terceira, ferida com secreção, calor ou vermelhidão crescente, e dor na panturrilha com edema, que pode indicar trombose. Nos dois primeiros casos ainda existe janela para intervir, inclusive com manipulação sob anestesia, e ela fecha rápido.

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